ROCK IN RIO: QUANDO O ROCK DEIXA O PALCO, MAS PERMANECE NA ESTÉTICA
O festival nunca foi exclusivamente rock. Mas existe uma curiosa contradição: enquanto o gênero perde espaço na programação, sua imagem continua sendo utilizada para vender uma experiência, uma atitude e até produtos.
Chegamos ao final de mais uma edição do Rock in Rio. E, diante de um festival que há muito tempo deixou de ser exclusivamente ligado ao rock, resolvi colocar algumas ideias no papel.
Não se trata de dizer que o Rock in Rio “deveria voltar a ser apenas rock”. O festival mudou ao longo de suas quatro décadas e hoje funciona como um grande evento de música e entretenimento, reunindo gêneros e públicos diferentes.
Mas existe uma questão que me chamou a atenção nesta edição e ela vai além do que está ou não está no palco.
ROCK IN RIO NUNCA FOI APENAS ROCK
Desde a primeira edição, em 1985, o festival recebeu artistas que não pertenciam ao universo do rock, mas afirmar que o Rock in Rio “nunca foi rock” é simplificar demais a história.

O que mudou foi a proporção.
Ao longo dos anos, o rock deixou de ocupar aquele espaço central que ajudou a construir a identidade do festival. Na edição de 2026, por exemplo, a programação oficial reúne nomes como Foo Fighters, Rise Against, The Hives, Avenged Sevenfold, Bring Me The Horizon e Sepultura, mas divide espaço com artistas de pop, música eletrônica, hip-hop, K-pop, música brasileira e outros gêneros.
Isso, por si só, não é necessariamente um problema. Um festival pode mudar.
O curioso é que a imagem do rock continua absolutamente presente.
CHIFRINHOS, GUITARRAS E POSE DE ROCK STAR
Observe a comunicação que envolve o festival.

Chamadas, campanhas publicitárias, elementos visuais, produtos e ativações de marcas frequentemente recorrem a uma estética que associamos imediatamente ao rock: guitarras, atitude rebelde, cabelos compridos, roupas pretas, gestos de “chifrinho”, amplificadores, distorção, energia de palco.
O rock continua sendo uma linguagem visual extremamente eficiente.
Você pode mudar o gênero musical no palco, mas a guitarra continua funcionando muito bem em uma campanha publicitária.
E talvez esteja aí uma das grandes contradições do Rock in Rio contemporâneo.
O ROCK ESTÁ EM BAIXA PARA ESTAR NO PALCO, MAS NÃO PARA VENDER PRODUTO

É curioso perceber como a estética roqueira continua sendo utilizada para construir uma imagem de juventude, liberdade, atitude e irreverência.
Marcas que não necessariamente têm qualquer relação com o rock incorporam elementos dessa cultura para criar uma comunicação mais “descolada”.
O rock, nesse sentido, parece ter adquirido uma função diferente.
Talvez já não seja tão importante como gênero musical. Mas continua extremamente importante como símbolo.
E isso não acontece apenas no Rock in Rio. A estética criada pelo rock há décadas foi incorporada pela publicidade, pela moda, pelo cinema e pela cultura pop.
SERIA UTÓPICO IMAGINAR UMA VOLTA DO ROCK?
Provavelmente sim, pelo menos se estivermos falando de uma volta do rock ao centro absoluto da indústria musical.
Mas essa não é exatamente a questão.
O rock nunca foi o gênero mais consumido por todos. Sempre existiram períodos de maior exposição e outros em que o gênero se recolheu para seus próprios nichos.
O que mudou é que esses nichos ficaram ainda mais fragmentados.
Uma pessoa pode gostar de Classic Rock, enquanto outra prefere Hard Rock, outra Heavy Metal, outra Punk, outra Grunge, outra Metal Extremo.

E dentro desses estilos existem ainda dezenas de subdivisões.
A PULVERIZAÇÃO DOS ESTILOS
Talvez esse seja um dos grandes desafios do rock atualmente.
Não necessariamente a falta de público, mas a pulverização desse público.
Uma pesquisa da Globo em parceria com a Quaest, realizada em 2026, apontou 7% de preferência declarada pelo rock, somando as categorias rock nacional e internacional. O número coloca o gênero à frente do pop internacional e do pop nacional na pesquisa, embora muito atrás dos gêneros que lideram as preferências brasileiras.
Outra pesquisa, realizada pela Ipsos em 2017, encontrou 16% de entrevistados que ouviam rock, mostrando como resultados podem variar bastante conforme metodologia, período e definição utilizada.
Ou seja: não é tão simples afirmar que “ninguém mais ouve rock”.
Existe público.
Existe consumo.
Existem bandas.
Existem festivais.
Existe uma enorme produção musical.
O que talvez tenha desaparecido foi aquela ideia de um único grande público de rock.

O ROCK COMO ESTÉTICA
E talvez seja justamente por isso que o fenômeno do Rock in Rio seja tão interessante.
O rock pode ter perdido parte de seu protagonismo musical, mas sua estética continua poderosa.
A guitarra ainda representa rebeldia.
O preto ainda representa atitude.
O gesto dos chifres ainda representa rock.
A imagem do astro com uma guitarra ainda comunica liberdade.

O paradoxo é que o mercado continua vendendo uma imagem construída pelo rock mesmo quando o rock propriamente dito ocupa cada vez menos espaço.
Talvez essa seja a verdadeira questão.
Não se trata de exigir que o Rock in Rio volte a ser exclusivamente rock. O festival mudou, e o público também.
Mas vale perguntar:
se o rock continua sendo uma das linguagens visuais mais poderosas da cultura popular, por que ele precisa estar cada vez menos presente na música que dá nome ao festival?
Talvez não exista uma resposta simples.
E talvez seja justamente essa a discussão que vale a pena fazer.
Por HBC — Hora de Bater Cabeça